O povo judeu foi receptor de um ritual
bastante peculiar para alcançar a misericórdia de Yahvé, através dos
Sacrifícios Expiatórios.
Foto: Wikipedia
Redação (23/03/2024 15:36, Gaudium Press) Faz parte da contingência do gênero humano o reconhecimento de
suas limitações e fraquezas. De fato, quem nunca precisou admitir um erro? Quem
nunca sentiu em si a falência das próprias forças em face de nosso estado de
prova?
“Que é o homem para que seja puro? Pode ser justo o que nasce de
mulher?” (Jó 15,14) ensinou-nos o íntegro Jó. Ou ainda, “quem de vós estiver
sem pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra” (Jo 8,7) – admoestou o Salvador
à multidão desejosa de lapidar uma mulher surpreendida em adultério. Nessa
mesma linha, o Rei e Profeta Davi é o personagem bíblico paradigmático: é
mediante o Salmo 50 que ele canta o melhor resumo de sua vida:
“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade
de vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade. Lavai-me totalmente de minha
falta, e purificai-me de meu pecado. Eu reconheço a minha iniquidade, diante de
mim está sempre o meu pecado. Só contra vós pequei, fiz o que é mau diante de
vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento. Eis
que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado. Não obstante, amais a
sinceridade de coração” (Sl 50,3-8).
Viver na condição de homem significa, pois, necessitar constantemente do
olhar beneplácito de Deus e de seu perdão; de implorar seu auxílio e sua
misericórdia.
Novamente, se nos reportarmos aos costumes do Antigo Testamento – um
tanto rudimentares, é verdade –, veremos que as aspirações dos homens
reclamavam o perdão divino, pois o fraterno, em face das falências humanas, era
muitas vezes olvidado…
Por essa e outras razões, após a edificação do Templo de Jerusalém, o
centro da vida do Povo Eleito passou a gravitar em torno dessa mansão divina,
para onde acorriam multidões de judeus suplicantes do perdão de Yahvé. Lá,
faziam-no mediante um sacrifício expiatório.[1]
Origem e características
No que se refere a esta espécie de sacrifício expiatório, as Escrituras Sagradas
indicam-nos dois tipos, embora não nos mostre claramente as diferenças entre
ambos:
. O sacrifício pelo pecado (Hatta’t, חַטָּ֔א);
. O sacrifício de reparação ou pelo delito (’Asam, אָשֵֽׁמ).
O primeiro deles, o sacrifício pelo
pecado, provém etimologicamente da raiz hebraica, Hatta’t, que
“significa faltar, ser defeituoso”.[2] Neste
cerimonial, as vítimas a serem oferecidas variavam de acordo com a posição
social e/ou religiosa do ofertante.
Por exemplo, se o pecado a ser expiado tivesse sido cometido por um
membro do povo, imolava-se um touro. Mas se o delito houvesse sido atentado
pelo próprio Sumo Sacerdote, cuja culpa manchava também o povo inteiro – dado
ser ele o mediador –, imolava-se também um touro.
No entanto, para a reparação da falta de um “príncipe” – chefes
seculares de comunidades –, sacrificava-se um macho caprino; ou uma cabra ou
ovelha, pelo pecado de um particular. Quanto aos mais pobres, estes podiam
substituir as vítimas custosas por duas rolas ou duas pombas, uma das quais
servia para o sacrifício e a outra, para o Holocausto. Podiam inclusive
contentar-se com uma oferenda de farinha.[3]
Os Sacrifícios ’Asam – cujo vocábulo hebraico indica a
ofensa cometida e o ato de reparação – possuem uma paridade de ritual com
os Hatta’t, mas estavam prescritos unicamente para os casos
particulares, pois distinguiam-se quanto ao elemento a ser ofertado: somente
carneiros.[4]
Duas peculiaridades distinguiam os Hattá’t dos demais
sacrifícios realizados entre os judeus: “A função do sangue e o uso das carnes
da vítima”.[5] Quanto
ao sangue, “se era oferecido o sacrifício pelo Sumo Sacerdote ou por todo o
povo, havia três ritos sucessivos: depois de recolher o sangue, o oficiante
entrava no Santo dos Santos e fazia a aspersão do sangue sete vezes diante do
véu que ocultava o Santo dos Santos, em seguida, friccionava com o sangue os
chifres do altar dos perfumes, que estava diante do véu; finalmente derramava o
resto diante do altar dos holocaustos. Eram os únicos Sacrifícios de animais
que levavam ao interior do Templo algo da vítima. Pelo pecado de algum chefe ou
de algum particular atritava-se somente os chifres do altar dos Holocaustos e
derramava-se o resto do sangue ao pé do altar; nestes dois Sacrifícios não se
penetrava no Santo nada da vítima”.[6]
Contudo, em que se baseavam os judeus para tanto estimar o sangue das
vítimas? Duas passagens bíblicas favorecem-nos uma compreensão: narra o livro
do Êxodo que, quando Moisés, o homem de Deus, concluiu a proclamação dos dez
mandamentos da Lei, ainda na presença de todo o povo reunido, tomou o sangue da
vítima para aspergir com ele o povo: “Eis – disse ele – o sangue da aliança que
o Senhor fez convosco, conforme tudo o que foi dito” (cf. Ex 24,8). Mais
adiante, no Livro do Levítico, Yahvé instruiu: “A alma da
carne está no sangue, e dei-vos esse sangue para o altar, a fim de que ele
sirva de expiação pelas almas, porque é pela alma que o sangue
expia” (cf. 17,11-12).
Ou seja, é através do sangue que se expia os pecados e se reata a
aliança com Deus. E tal realidade, o povo eleito a entendia bastante bem.[7]
No que se refere ao consumo das partes do animal imolado, o Livro do
Levítico prescreve aos sacerdotes uma norma um tanto curiosa, pedindo que o
façam com toda a diligência e com toda a devoção, pois “essa é uma coisa
santíssima” (Lv 6,22).
Ora, como pode um animal (que carrega em si o pecado) ser tratado e
estimado desta maneira? Não haveria aqui uma contradição? De nenhum modo. “A
vítima é agradável a Deus que, em consideração a esta oferenda, apaga o
pecado”.[8] E
ainda, olhando para os séculos posteriores aos da instituição destes sacrifícios, veremos que São Paulo interpretará isso muito
bem: “[Cristo], que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que
nele nós nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5,21).
Desse modo, bem podemos ver nesses sacrifícios expiatórios o prenúncio e o símbolo do
sacrifício exemplar e inigualável ao qual Cristo foi submetido pelo Pai, ao
assumir sobre Si nossas culpas, derramando por nós todo o seu preciosíssimo
sangue.
Por João Pedro Serafim
[1] Para
acesso aos artigos anteriores, sobre os Sacrifícios do Antigo Testamento: https://gaudiumpress.org/content/os-sacrificios-do-antigo-testamento-o-holocausto/;
https://gaudiumpress.org/content/os-sacrificios-do-antigo-testamento-ii-os-sacrificios-pacificos/
[2] COLUNGA,
Alberto; GARCIA CORDERO, Maximiliano. Biblia comentada: Pentateuco.
Madrid: B. A. C., 1960, p. 639. (Trad. pessoal).
[3] Cf.
DE VAUX, Roland. Instituciones
del Antiguo Testamento.
Barcelona: Herder, 1976, p. 532. (Trad. pessoal).
[4] Cf.
ibid., p. 534.
[5] Cf.
ibid., p. 533.
[6] Ibid.
[7] Quanto
à repartição das carnes, “o ofertante, reconhecido como culpável, não recebe
nada, e tudo passa aos sacerdotes. E quando o Sacrifício é oferecido pelo
pecado da comunidade ou pelo pecado do Sumo Sacerdote que representa a
comunidade, nem sequer os sacerdotes podiam comer nada da vítima; esta era
levada para fora do santuário, ao depósito das cinzas” (cf. DE VAUX, Roland.
Op. cit., p. 533).
[8] Ibid.
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